
O dia amanhece com um sol digno de verão – robusto e brilhoso, exposto na moldura do céu azul sem nuvens, mas você não quer, sequer abrir a janela para contemplar, o que é pra você, só mais um dia de verão.
A cama fica sendo a melhor das opções neste momento. Nem mesmo o sol, nem a praia, nem amigos lhe dizendo que música escutar para distrair o coração, lhe interessam neste momento. E a cama, permanece sendo a melhor opção.
As horas passam, telefone toca, os olhos se abrem com dificuldades no meio do quarto gelado e escuro. Você percebe que é mais uma receita, como fórmula matemática, chegando para você, agora por mensagem, e você então, toma mais uma pílula, a seco, para lhe curar do mal que só mesmo você pode entender.
Sabe, certa vez um amigo sofreu um acidente. Seu nome era Hertur e me lembro bem de tudo que conversamos sobre o mal que lhe acometeu. Acredito que tudo tenha ocorrido a pelo menos cinco anos atrás.
Ele perdeu o que lhe mantinha de pé. Pelo menos era assim que ele acreditava ser. Perdeu sua espinha dorsal, num dos eventos que a vida nos reserva, sem sequer pedir licença. E me lembro bem que nem médicos, nem aparelhos modernos da medicina podiam atestar o que ele sentia, apesar de todas as dicas, receitas, formulários, nada curava sua dor.
O amor é sinônimo de alegria, felicidade, mas é também, muitas vezes, sinônimo de dor. Você vai então pensar, mas ele não sabe nada sobre o amor. E tens razão: - não sei!
Mas percebi que a dor do amor, não pode ser curada com receitas prontas, formulários, tratamentos, nem tampouco conselhos. Hertur me fez perceber isto.
Em um de seus tratamentos, para tentar curar sua espinha dorsal, percebeu que só o tempo era o seu amigo, o que esteve com ele o tempo todo em silêncio. Aquele que não lhe ofereceu cigarro para aliviar o estress, nem uma dose de whisky para esquecer a dor e nem uma noite de prazeres para lhe descontrair da angústia. O tempo foi de todos os amigos, o mais sábio. Sutilmente, em silêncio.
A dor que sentia era de tirar o fôlego, de lhe faltar ar, mesmo com os pulmões cheios dele. A dor era do medo. Medo do que era completamente novo para ele. A dor de não saber como seria o agora, sem sua coluna, seu pilar, sem seu alicerce. Aquilo que lhe mantinha de pé, em movimento. A dor era de olhar pra trás e ver o quanto caminhou enquanto a teve consigo, e como iria caminhar agora, sem a tê-la. Será que saberia seguir? Reaprender a viver? Será que é mesmo uma nova vida que teria de enfrentar?
Sobre todas as dúvidas que rondavam sua cabeça, o seu melhor amigo tratou de lhe mostrar o que ele, simplesmente, não conseguia mais vislumbrar. O tempo se encarregou de lhe dar às mãos, resgatar sua confiança, ajustar a disritmia de sua respiração, tapar o vazio de seu peito com boas recordações e também edificou novos sentimentos por coisas que antes, eram imperceptíveis a ele.
E sobre todos os bens que lhe fez o tempo, lhe deixou bem claro também, que não apagaria as lembranças do que viveu com sua espinha dorsal no lugar, mas sim, transformaria todas elas em ponte para o que ele deveria ser daqui pra frente.
A tarde vem vindo, e eu já conto a oitava ligação que não atendi.
O lindo sol que pairava mais cedo começa a deixar a janela do meu quarto, e aquele dia radiante de verão já não é mais tão radiante como antes. Assim como o céu, que já cedeu o brilho de seu azul do dia, para o insosso cinza da noite.
A cama deixa de ser a melhor opção e percebo que a melhor coisa que tenho a fazer é pegar o telefone e reunir as últimas oito chamadas não atendidas para uma fascinante gargalhada em grupo, seja num bar, numa sauna, piscina, varanda, sala, seja qual for o lugar.
A sabedoria em silêncio do tempo foi sim o melhor amigo para Hertur, e ele aprendeu muito com todo o seu acidente. Mas eu não seria nada se não fossem as vozes claras e gargalhadas estridentes dos meus verdadeiros amigos, os deuses de carne e osso.
"que a história de Hertur nos alerte: - não faça de seus sentimentos o que lhe mantém de pé!"